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11 de jan de 2011

PARTE IV

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PAIXÃO & CRUELDADE


Isabella PDV

Quando cheguei ao estacionamento, tirei o blazer do Democracy e o deixei deslizar por meus dedos até cair no chão. Livre dele e das desculpas que criei para não abandonar o lugar, caminhei até o Mustang.

Ao entrar no carro, segurei o volante com toda a minha força e pousei a testa sobre ele, sentido como se meu peito se contraísse em uma agonia silenciosa. Se alguém colocasse o ouvido em meu coração, provavelmente ouviria gritos ao invés de batidas.

 

Com dificuldade para respirar, pendi a cabeça para trás, simplesmente exausta... Sempre ouvi pessoas mais velhas dizerem que quando somos jovens os golpes da vida parecem mais fortes, porque erroneamente acreditamos que tudo é o fim do mundo. Eles podem até estar certos, mas, para quem sofre, independente da idade, é sempre O sofrimento. Vemos nosso mundo erguido de sonhos, esperanças, anseios e medos ruir em um estalar de dedos. Sofrimento é um sentimento, e para sentimento não existe lógica. No meu caso, “meu mundo” ruiu tantas vezes que me tornei uma garota psicologicamente instável e emocionalmente perdida. Então a questão era: como seguir em frente? Por onde começar?

Desesperada, coloquei as mãos na cabeça querendo gritar, mas infelizmente toda a angústia permaneceu fechada em meu peito. Revoltada com a minha incapacidade de exteriorizar o sofrimento, dei partida no carro e pisei no acelerador. No mesmo momento, Edward se colocou na frente do veículo. Freei o mais rápido que pude, mas não consegui evitar que o impacto o derrubasse. 

Nervosa, saí do carro e o encontrei estendido no chão. Ele se apoiou nos cotovelos, respirou fundo e, quando conseguiu se levantar sozinho, fiquei extremamente aliviada.

Inicialmente eu não sabia o que pensar, mas quando ele caminhou em minha direção, paralisei bastante constrangida. Tudo que me veio à cabeça foi que ele tinha visto a minha foto, e por isso, sentia-me despida como se Edward pudesse me enxergar como ninguém mais podia.

Edward PDV

Embora Isabella não tivesse mais cicatrizes, suas reações e minha consciência levaram-me a vê-la como a mesma garota assustada que feri no passado. Cabisbaixa, ainda escondia a face atrás dos cabelos e ofegava como se fosse fugir.

O mais estranho é que, naquele momento, não me importei com nada, apenas sofria ao finalmente ver toda a nossa história sob sua ótica. Eu era o cara que tinha tudo e ela a garota que todos tratavam como se fosse um monstro, em grande parte, por minha culpa.

Isabella me fez sentir na pele como era ser repudiado, odiado e maltratado. Ela me arrastou para o seu “mundo” e, depois disso, tudo mudou, eu mudei. Mudei a ponto de sentir por ela algo que nunca senti por ninguém.

Isabella PDV

Edward ficou parado por um tempo me olhando com uma expressão indecifrável, então deu um passo à frente erguendo vagarosamente a mão. Meu coração disparou conforme seus dedos se aproximavam do meu rosto. Foi uma sensação muito estranha, pois era como se as cicatrizes ainda estivessem lá.  

Com o indicador em meu queixo, me fez erguer a cabeça e meus olhos encontraram os dele. Sentia-me mais protegida com os cabelos na frente do rosto, então, quando Edward os afastou, fiquei inteiramente vulnerável. Seu toque receoso me fez estremecer como no dia em que me tocou pela primeira vez.

- Eu... - Franziu o cenho parecendo lutar para encontrar palavras. - Não existe justificativa para o que fiz por tantos anos. Eu te vejo em todos os lugares... O tempo todo, já nem sei... - Seus olhos brilhavam por causa das lágrimas contidas. - Eu queria, não, eu preciso... - Baixou a cabeça e pressionou minhas mãos contra o seu rosto, nitidamente amargurado. - Isabella... - Gemeu e minha coragem desapareceu.

Era difícil ouvi-lo chamar meu nome, pois automaticamente minha mente ligava aquela voz ao apelido que tanto me perturbava. De súbito, afastei-me deixando Edward confuso. Então, em uma reação irracional comandada pelos antigos medos, simplesmente fugi. Corri para longe dele e dos fantasmas que ainda me assombravam. Saí do estacionamento e segui pela calçada, não vendo quase nada à minha frente por causa da cortina de lágrimas que cobriram meus olhos.

Quanto mais corria, mais velozes se tornavam meus pés. O vento forte chocava-se contra minha face, espalhando as gotículas de sofrimento por minhas bochechas. Ouvia Edward me chamar, sabia que me seguia e, mesmo assim, não fui capaz de parar. Continuei correndo e correndo...

Edward PDV

Não podia deixá-la. Mesmo que Isabella não quisesse me confrontar, eu precisava encontrar palavras que a fizessem entender que eu não queria mais magoá-la.

Corri o mais rápido que pude, mas, por mais que eu esticasse o braço para lhe alcançar, a garota escapava-me por centímetros.

Estávamos chegando perto de um cruzamento movimentado e Isabella não deu sinais de que ia parar.

- ISABELLA, PARE!

Isabella PDV

Involuntariamente olhei para trás e, quando voltei meu olhar para frente, já estava quase no fim da calçada. Tudo aconteceu muito rápido. Parei abruptamente no meio fio, mas, sem equilíbrio, meu corpo começou a projetar-se para frente. Ouvi o som alto de uma buzina, ofeguei, e tudo que senti depois foi Edward puxando-me pela blusa e isso me fez pender para trás. No segundo seguinte, o caminhão passou bem à minha frente e a rajada de vento provocada pela velocidade do veículo fez minhas pernas vacilarem.

Edward me manteve junto ao seu peito e, com os braços bem firmes em volta da minha barriga, afastou-se do meio fio levando-me junto. Por alguns segundos nada falamos, apenas recuperamos o fôlego. Sentia muito bem a respiração dele no meu pescoço e todo meu corpo reagiu, arrepiando-se.

- Me perdoa? - Sussurrou em meu ouvido.

Fechei os olhos e senti toda a magnitude daquelas palavras. A pergunta que nunca imaginei ouvir alcançou a parte mais íntima do meu ser. Algo entre a alma e o espírito. Aquela simples frase teve mais poder curativo sobre mim do que toda a vingança que executei.




Baixei a cabeça e o obriguei a me soltar. Relutante, Edward me largou. Girei vagarosamente o corpo e o encarei com toda a intensidade.

- Edward... - Minhas pernas e voz se tornaram sólidas e confiáveis. - Eu já perdoei antes mesmo de você pedir.

Em sua expressão não havia só alívio e gratidão, existia algo além da minha compreensão. Tive um vislumbre disso quando, com confiança e vontade, segurou o meu rosto com as duas mãos e beijou-me.

Imediatamente meus pensamentos foram ofuscados pela sensação incrível de sua boca na minha. Foi um beijo singelo e calmo. Nossos lábios permaneceram unidos e imóveis, até que ele colocou uma mão em minhas costas, pressionando-me gentilmente contra si. O calor de seu corpo me envolveu e me senti segura. Assim que Edward percebeu isso, deslizou as mãos até meus braços e os colocou em volta de seu pescoço. Não houve hesitação da minha parte, eu já estava totalmente rendida.

Edward segurou firmemente a minha cintura e roçou seus lábios nos meus. Involuntariamente, arfei abrindo a boca, o que deu a ele a oportunidade e o consentimento para sugar meu lábio inferior suavemente. A sensação foi tão complexa que meu estômago se contraiu em um nervosismo gostoso. Mal percebi quando fiquei na ponta dos pés, ansiando por mais e mais de seu sabor. Edward não me decepcionou e finalmente colocou sua língua dentro da minha boca. Foi delicioso senti-la contra a minha, massageando-a conforme seus lábios umedeciam os meus.

Nada do que eu já havia sentido na vida se comparava àquilo. Não era um simples primeiro beijo, era o beijo de alguém que eu amava profundamente.

Era redenção e realização.

Edward PDV

Meus pensamentos correram soltos enquanto o beijo perdurava em um tempo feito só para ele...

A Bella narcisista que conheci antes se apagou quando descobri que a Marie que me cativou era, simplesmente, a Isabella. Todos esses nomes eram peças do mesmo quebra-cabeça e, agora que ele estava montado, eu só me importava com a Isabella do “agora”. Já não queria viver no passado, por isso meus braços a envolviam como se nunca mais fosse largá-la.

Nem toda a experiência que eu tinha foi capaz de explicar as sensações turbulentas que vivenciava. Aquilo estava sendo tão novo para mim quanto devia estar sendo para ela, pois eu nunca beijei ninguém como se minha vida fosse se resumir em antes e depois do beijo. Era estranho, errado, assustador, mas, principalmente, extraordinário.

Talvez eu também estivesse obcecado por Isabella, mas eu não dava à mínima, porque aquele contato estava sendo mais real e significativo do que toda a minha planejada vida. Será que é assim que as pessoas apaixonadas se sentem? Porque parece que enlouqueci e, ao mesmo tempo, parece que alcancei a verdadeira sanidade.

O beijo que começou suave seguiu seu próprio curso, levando-me a explorar a boca de Isabella e deixando que invadisse a minha com sua doçura e sensualidade nata. Eu não curtia garotas inexperientes com relação a beijo, mas com Isabella era diferente. Seu despreparo tornava seu beijo delicioso. A forma urgente com que sugava a minha língua e o leve tremor de seu corpo me excitavam e seduziam. Em um ímpeto, a pressionei contra a parede mais próxima e simplesmente me deliciei com sua boca.

Pela primeira vez na vida, estava sentindo tudo aquilo que julguei não existir: o frio no estômago, a adrenalina, o medo, o corpo tenso e a necessidade de pertencer a alguém... De pertencer a ela.

Isabella PDV 

Perdida. Eu estava completa e deliciosamente perdida no beijo de Edward. Hora era carinhoso, hora intenso... Meu coração era fraco demais para suportar de uma vez só todas as sensações se misturando e, por isso, só por isso tive que agarrar o cabelo da nuca dele e afastá-lo para poder respirar.

Com as testas coladas e de olhos fechados, ofegamos e nada mais. Embora o beijo houvesse acabado, ainda estávamos presos a ele.

- Esse... - Arfei. - Foi o primeiro beijo mais perfeito que já existiu. - Podia até estar enganada, mas para mim era a mais pura verdade.

Abri os olhos e Edward ainda mantinha os seus fechados.

- Então é assim? - Sussurrou.

- Assim o que?

- Sentir algo... - Abriu seus lindos olhos verdes.  - Inominável?

Meu rosto ardeu e meus olhos voltaram a ficar úmidos. Determinada a não ser emotiva demais, não falei nada. Mas meu sorriso abobalhado não só respondeu sua pergunta como lhe provocou uma gostosa risadinha. Edward roçou seu nariz no meu, então voltou a me beijar.

* SEXTA-FEIRA *
                                                                                                      

Cheguei ao Democracy e nem sinal de Edward. Como uma boba, fiquei plantada na entrada do prédio à sua espera até que todos os alunos entrassem. Decepcionada, só conseguia imaginar que se arrependera de tudo que fez e falou no dia anterior. Talvez a “ficha tivesse caído” e se tocara do mal que lhe fiz. Quando passou das 8:40h, lembrei que ainda tinha minha passagem para a Austrália e não vi outra alternativa a não ser usá-la.

Jasper, que já sabia de tudo, me enviou uma mensagem de texto e, quando comecei a responder, ouvi uma buzina. Olhei preguiçosamente para trás e lá estava ele.

Senti novamente aquele frio no estômago quando Edward saiu de seu Volvo. Estava com a barba feita e seus hematomas já nem eram tão visíveis. Ele usava uma camiseta preta que se moldava ao seu corpo, jeans, tênis e óculos escuros. Nunca o vi tão lindo!

Edward me chamou com a mão e precisei de alguns segundos para reagir. Fui ao seu encontro e a primeira coisa que me falou foi:

- Tem o final de semana livre?

- Acho que sim. - Não entendi onde estava querendo chegar.

Deu a volta no carro e abriu a porta com um sorriso.

- Vem comigo?

(...)

Edward pediu para eu avisar aos meus pais que ia passar o final de semana fora, mas preferi lhes dizer que ficaria com Jasper e a mãe dele. Liguei também para o meu amigo e ele concordou em sustentar a mentirinha.

- Eu não tinha que pegar algumas... roupas? - Indaguei olhando para a mochila de acampamento e sacolas de supermercado jogadas no banco traseiro.

- Tudo bem, a gente dá um jeito.

- Aonde vamos? - Estava confusa. Edward balançou a cabeça se recusando a falar. - Isso é um seqüestro? - Arquei a sobrancelha.

- Pode-se dizer que sim. - Respondeu satisfeito. - Ok, vou te dar uma dica. - Apontou para o lado direito e eu baixei o vidro da janela.

Onde indicou, ao longe, só havia a marina de Los Angeles, onde inúmeros veleiros e iates estavam atracados.

- Está falando sério? - Gritei perplexa.

- Sim, estou!

- Oh, meu Deus! - Comecei a rir feito criança. - Eu vou velejar! - Era até difícil acreditar.

(...)

- Bem vinda a bordo. - Edward me ajudou a subir pela popa no veleiro oceânico.

- É incrível. - Mais encantada não podia estar.

- Preparada para aprender a velejar?

- Como assim? - Franzi o cenho. - É você que vai guiar isso?

- Sim. - Respondeu com naturalidade.

- Não... - Estreitei os olhos, duvidando.

- Esse barco é do meu tio. Sempre que dá, velejamos juntos.

- Ah... - Começava a entender. - Por isso disse ontem “não é tão difícil quanto parece”.

- Exato. - Riu. - Vem, vou te mostrar a cabine.

Descemos alguns degraus e, quando eu vi a cabine, percebi que o barco era bem maior do que eu tinha imaginado. A madeira envernizada das paredes, móveis e armários chegava a cintilar e o cheiro do lugar era bem agradável. Havia uma saleta com um sofá em forma de V e no meio uma mesinha para refeições e coisas do tipo. No mesmo espaço, tinha uma cozinha com bancada de trabalho, pia, geladeira, fogão, lixeira e um grande compartimento sob ela para guardar utensílios e mantimentos. No lado esquerdo as escadas que davam acesso a cabine, existia uma abertura que levava a uma cama de solteiro. Já no lado direito, ficava o banheiro. Do lado oposto à cozinha, era onde ficava a área de navegação e rádio-comunicação de bordo. Por último, mais à frente, se encontrava a cabine da proa com uma cama de casal. Era necessário subir no sofá para ter acesso à cama.



(...)

Através da janela do banheiro vi a marina ficar cada vez mais distante. Edward pretendia velejar pela costa de Los Angeles, mas também disse que me levaria para alto-mar. Ele me deu todas as garantias de que sabia o que estava fazendo, só que nem precisava. Eu não estava preocupada com a viagem, e sim com pequenas coisas, como o fato de não conseguir amarrar o biquíni que ele disse que eu encontraria no armário do banheiro.

Coloquei-me ao pé da escada e, constrangida, falei alto:

- Edward... - Cruzei os braços na frente do busto. - Pode me dar uma mãozinha?

- Posso dar duas. - Brincou ao descer as escadas.

Imediatamente se colocou atrás de mim, mas estava demorando demais para dar um simples laço.

- Você sabe como amarrar isso, certo? - Questionei.

- Pronto! - Pigarreou sentando-se rapidamente no sofá.

- Está tudo bem? - Me virei para ele.

- Sim. - Prendeu o riso colocando uma almofada no colo.

Era estranho ficar só de biquíni na frente dele, sentia-me quase nua.

(...)

Sentada na popa, lugar onde Edward chamou de cockpit, fiquei olhando para as enormes velas tremulando ao vento. O Sol aquecia a minha pele e meu cabelo ondulava a mercê da brisa. O balançar do veleiro não me incomodava e, por mais que Edward tentasse me explicar como funcionava o sistema de navegação, eu só conseguia prestar atenção à magnífica vista. O fato de ele estar sem camisa também não ajudou.

- Isabella, está entendendo alguma coisa? - Tirou os óculos escuros.

Depois que Edward me pediu perdão, ouvir meu nome através de sua boca já não era tão assustador.

- Sim. - Menti muito mal e ele riu.

- Entendeu ao menos o que é cana de leme? - Indicou a peça comprida de madeira que segurava para guiar o veleiro.

- Claro!

- Então vem cá. - Largou a cana de leme e me fez sentar no comando. - Esse é o nosso timão, então, se puxar a cana, o leme vai para baroeste, ou seja, direta. Se empurrar, vai para bombordo, que é lado esquerdo. Entendeu?

- Sim. - Coloquei a mão na cana de leme. Empurrei só um pouco e o veleiro inclinou-se para a esquerda. - Que máximo! - Ri alto.

- Está velejando. - Tocou meu rosto. - Uma coisa a menos na lista das coisas que nunca fez.

O fitei e Edward roçou o polegar nos meus lábios me fazendo desejar um contato maior. Pensei que fosse me beijar, mas logo percebi que ele estava tentando ser paciente.

(...)

À tarde, Edward me emprestou um moletom e sentamos na proa. Bebemos algumas cervejas bem geladas e conversamos por horas. Ele queria saber muitas coisas sobre mim e chegou a perguntar como minhas cicatrizes tinham sumido. Procurei não demonstrar desconforto, mas resumi minha história em poucas frases.

A maior parte do tempo, o clima foi suave e divertido. Rimos, brincamos, falamos bobagens e flertamos como nunca. Em alguns momentos, Edward quase me beijou, mas infelizmente conteve-se para me dar a chance de me adaptar ao nosso relacionamento.

Assistimos ao por do Sol em silêncio e foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Tínhamos a nítida impressão de que o Sol mergulhava lentamente no oceano, cedendo seu lugar à Lua para que ela reinasse absoluta na noite.

Assim que ficou escuro, tomei uma chuveirada no pequeno banheiro e vesti uma blusa de mangas compridas de Edward. Mesmo não estando com nada por baixo, me sentia muitíssimo vestida, pois a blusa em mim ficou parecendo um camisolão.

Logo que desocupei o banheiro, foi a vez de Edward tomar um banho. Ele deixou algo no forno que cheirava muito bem. Encolhida no sofá, me questionei como ele podia ser tão prendado, então usei a lógica. Se ele costumava velejar com o tio, tinha que saber “se virar”, certo? Ri baixinho chegando à conclusão de que, de um jeito torto, ele era o genro que minha mãe pediu a Deus. Para não ficar sem fazer nada, dei uma revirada na geladeira e resolvi preparar uma salada. Lavei bem os vegetais e o resto foi fácil.

Durante o jantar, voltamos a conversar saboreando um aprazível peixe. O vinho branco o deixou ainda mais delicioso.

- Posso perguntar uma coisa? - Sorri timidamente.

- Claro.

- Como ficou tão maduro? Quero dizer, a maioria dos caras da nossa idade só pensam e falam idiotices.

- Acho que foi a minha criação. - Bebeu um pouco de vinho. - Antes mesmo de eu nascer, meus pais já tinham planejado cada passo que eu daria na vida.

- E como eles estão reagindo aos “passos” que não estavam nos planos?

- Bem mal. - Baixou a cabeça e soltou o garfo perto do prato. - O pior é o meu pai... - Suspirou, em seguida imitou o tom que o governador usava com ele. - Não vou tolerar nenhum perdedor nessa família! Você tem que ser um líder, Edward! Faça acontecer!

Engoli em seco, partilhando com ele o peso daquelas palavras.

- Talvez seu pai ainda não tenha entendido que você não é uma extensão dele. - Murmurei, mas logo me retratei.  - Desculpa... Eu não devia ter falado isso.

- Tudo bem. - Fez uma longa pausa e sua expressão mudou. - Sabe, só depois que você voltou ao Democracy foi que comecei a agir de forma impulsiva. Decepcionar meus pais acabou me libertando um pouco e me fez enxergar a vida medíocre que eu levava. Sendo assim, de um jeito estranho, você me ajudou muito.

- Que nada! - Me recusei a ver a minha vingança como algo bom.

Edward ficou me olhando por tempo, então soltou uma risadinha intrigante.

- O quê? - Coloquei a mão na boca achando que estava suja.

- Está linda.

- Você tomou muito Sol na cabeça. - Era brincadeira? Porque eu nunca estive tão desarrumada na frente dele.

Edward sorriu e voltou a comer com mais vontade.

(...)                                                                               

O veleiro ficou parado em alto-mar e não existia nada no horizonte. As águas prateadas por causa do reflexo da Lua ondulavam suavemente e no céu havia milhares de pontos luminosos que me impressionavam. Não se podiam ver tantas estrelas assim na cidade.

Ficamos no convés esvaziando a garrafa de vinho e relaxando. Edward falava de como gostaria de ser mais impulsivo e não se preocupar tanto com cada detalhe de suas atitudes. Então, sem mais nem menos, ele levantou-se e tirou sua camisa, mas foi quando se livrou das calças que arregalei os olhos.

Ele trocou um rápido olhar comigo, e sem nenhum constrangimento, mergulhou no mar. Imediatamente me debrucei sobre a grade de segurança e o vi desaparecer na água. O tempo correu e nada de Edward emergir.

- Edward? - O chamei preocupada. - Edward, não tem graça! Por favor, apareça! - As águas ficaram demasiadamente calmas e o silêncio foi absoluto. - Edward? - Murmurei sem saber o que fazer.

Com o olhar fixo no mar, esperei e o desespero começou a surgir. E foi nesse exato momento que senti braços fortes enlaçarem minha cintura.

- Shh... - Sussurrou em meu ouvido. - Estou aqui.

Quase me virei para bater nele, mas sentir toda a extensão de seu corpo contra o meu distraiu-me demais.

- Isso não se faz.

Edward ignorou o que eu disse e colocou uma mão em meu coração.

- Tão acelerado. - Sua voz rouca e baixa deixou transparecer uma estranha satisfação em saber que me preocupava com ele. - Desculpe. - Não precisei fitá-lo para saber que estava sorrindo.

- Da próxima vez nem ligarei se você se afogar. - Fingi indiferença.

- Mesmo? - Afundou o rosto em meus cabelos e involuntariamente, fechei os olhos. - Vai me deixar morrer? - Beijou a parte de trás da minha orelha.

- Sim. - Respondi em um quase suspiro.

- Não tenho certeza disso. - Mordiscou minha orelha.

- Não dou a mínima pra você. - Me arrepiei inteira e ele percebeu.

- Também não dou a mínima pra você. - Roçou os lábios em meu pescoço.

- Não tenho certeza disso. - Imitei sua resposta com um sorriso.

- Acredite, não me sinto nem um pouco atraído por você. - Sussurrou deslizando as mãos até os meus quadris.

- Igualmente. - Gemi sentindo os dedos dele alcançarem a barra da blusa.

- Isso é tão cruel. - Puxou a blusa para cima, despindo-me.

- Por quê?

- Mentir não diminuía nem um pouco sensação de que se não te tocar... vou enlouquecer.

- Então não enlouqueça. - Reprimi um gemido quando lambeu suavemente meu ombro. - Ou... - Sorri, divertindo-me. - Enlouqueça. - Me afastei e, dessa vez, quem pulou no mar fui eu.

Imersa, senti o choque da água fria contra o meu corpo excitado. Não foi algo ruim, na verdade, foi gostoso ficar envolvida pela água salgada e me sentir livre enquanto mexia braços e pernas para voltar à superfície.

Quando meus pulmões encontraram ar, Edward já estava lá, a meio metro de mim. Arfei e ele me lançou um olhar muito sedutor. Fiquei parada apenas boiando enquanto ele me rodeava, provavelmente analisando-me de todos os ângulos.

Diminui a distância entre nós e coloquei meus braços em volta do seu pescoço. Edward nos levou até a escada lateral, a qual dava acesso ao veleiro. Ele manteve uma mão no degrau e o braço direito em volta da minha cintura, para que não afundássemos.

Ficamos apenas nos encarando e, instintivamente, levei meus dedos até as pequenas cicatrizes em sua face. As contornei em um lamento mudo, lembrando-me de todas as surras que ele levou por minha causa.

- Se, para estarmos aqui hoje, eu tivesse que passar por tudo de novo... Isabella, eu passaria. - Afirmou com muita segurança.

Não respondi nada, pois meus lábios foram de encontro ao machucado em sua testa. Passei a beijar gentilmente todas as cicatrizes que marcaram um capítulo conturbado de nossa história. Então, por último, beijei suavemente o pequeno ferimento no canto da boca de Edward. Ele imediatamente gemeu, exigindo mais. Como também estava desejosa, não perdi mais tempo e o beijei com paixão. A sensação foi tão incrível quanto da primeira vez. Seus lábios molhados e salgados devoraram os meus com doçura e malícia.

(...)

Deitados no convés, próximo à proa, ficamos quietos apenas observando um ao outro. Corpos desnudos cobertos pela luz da Lua e tocados com gentileza pela brisa marítima. Havia algo de magnífico na falta de timidez e na cumplicidade que partilhamos.

Com o desejo à flor da pele, praticamente adoramos o corpo um do outro alcançando um nível maior de intimidade. Não sei dizer quanto tempo ficamos naquele estado, mas sei dizer o que senti quando Edward finalmente colocou-se sobre mim. Minha pulsação estabeleceu um ritmo frenético e libertou a libido contida.



Os lábios quentes de Edward sugaram a minha língua e as partes internas das minhas coxas roçaram em seu quadril, o convidando para me preencher.

- Isabella, vou fazer amor com você do jeito que deveria ter feito na primeira vez. - Sua voz rouca me excitou ainda mais.

Após um beijo delicioso, a boca de Edward ocupou-se com meu pescoço e deslizou avidamente até os meus seios. Meus dedos automaticamente buscaram por seus cabelos e se perderam ali. Quando dei por mim, já estava arfando com a maciez da língua dele por todo o meu busto.

Embora eu tentasse me conter, meu autocontrole se dissipou no momento em que ele levou sua boca até minha barriga e, sem hesitar, mais além. Involuntariamente meu corpo arqueou-se e Edward apertou minhas coxas, saboreando-me de um jeito único.

Sensações crescentes foram invadindo meu peito conforme os maravilhosos minutos corriam. Edward conseguia ser afetuoso e, ao mesmo tempo, intenso. Alternava entre sua fome masculina e a paciência de um amante habilidoso.

Não demorou para que os espasmos dominassem meu corpo e minha respiração sumisse, assim como tudo mais. Fechei olhos e o resto foi... simplesmente indescritível.

Edward PDV

Quando Isabella se recuperou, deitou-se sobre mim e acariciei suas costas sem apressá-la. Ela espalhou beijos por meu maxilar e colou a testa na minha. E foi com seu hálito invadindo minha boca que senti seu toque delicioso. Incapaz de me conter, gemi e a garota continuou a me estimular.

Mesmo desesperado para me colocar entre suas pernas, reprimi meus instintos e me entreguei a ela. Isabella era uma doce torturadora e me enlouqueceu quando começou a retribuir os beijos que espalhei por seu corpo.

Diferente das outras vezes em que fizemos sexo, ela não estava sendo uma vítima, nem uma manipuladora. Agora, Isabella era minha cúmplice, minha parceira, minha constante fantasia.

Mostrando-se igualmente desejosa, ela passou a me provar intimamente. Isabella fazia aquilo de um jeitinho só dela e foi uma das melhores sensações da minha vida. Não consegui pensar em mais nada, só a sentia, sentia e sentia.

Isabella PDV

Não conseguindo mais se conter, Edward colocou o preservativo que havia pegado depois que saímos da água e posicionou-se em cima de mim.

Ficamos nos encarando, dizendo mais com o olhar do que com frases feitas e cheias de clichês. Senti que era um daqueles momentos que você sabe que nunca vai esquecer. Então o que veio a seguir só confirmou a declaração silenciosa.

Encaixados e entregues, desfrutamos de movimentos calmos, mas muito prazerosos. Apesar de o meu sangue quente agitar meu corpo, e de dentro da minha garganta brotarem gemidos roucos... eu estava em paz.

Edward PDV

Me dediquei a Isabella como nunca me dediquei a ninguém. Obcecado, cego, inteiro, extasiado... Ainda era difícil entender o sentimento que me abateu e me mostrou o quanto estava errado sobre a vida.

Nunca tinha visto o sexo por aquele ângulo, onde você sente que a outra pessoa é uma extensão de você mesmo. Onde o prazer é partilhado não com a intenção de uma satisfação instantânea, mas sim com a vontade irracional de se misturar à outra pessoa. De marcar a quem se gosta de tal forma que ela nunca venha a se esquecer de você.

Em um movimento sutil, trocamos de posição e Isabella montou em mim. Coloquei minhas mãos em sua cintura e lhe ajudei a encontrar novamente o prazer. Deslumbrado com a forma com que luz da Lua se moldava à sua silhueta, gemi de um jeito que nunca gemi antes.

Isabella PDV

Passei as mãos pelos cabelos e meus dedos deslizaram para o pescoço. Plena, me sentia livre e desinibida. Naquele momento eu não era um monstro, não era uma louca. Era uma mulher consciente de sua sensualidade e da fascinação que exercia sobre o homem que tanto amava.

Com toda a paixão, dei a Edward, e a mim mesma, mais do que prazer. Levei-nos ao delírio e o fiz sentir que aquilo era tão certo e verdadeiro quanto o imenso oceano.

Então, para o meu total deleite, Edward começou a falar palavras sensuais e lisonjeiras. Os espasmos voltaram com mais força. Meu corpo se contraía parecendo causar sensações intensas em Edward. Pendi a cabeça para trás e me deixei ser guiada por meus instintos. Podia sentir o corpo de Edward respondendo ao meu com súplicas e necessidades. Por isso, chamei por seu nome no momento em que sucumbi à força daquele desejo tão antigo e enraizado em mim. Foi incrível!

Algum tipo de corrente elétrica ainda percorria meu corpo quando Edward colocou-me novamente embaixo de si. Ele canalizou as milhares de sensações que devia estar sentido em movimentos fortes e enlouquecidos. Eu não sabia que ainda podia sentir tanto prazer e o assisti chegar ao ápice, admirada com o jeito lindo e desesperado que me fitava.

Quando tudo acabou, permitimos que o som do mar acalmasse nossos corações e relaxamos nos braços um do outro.

(...)




Acordei antes de Edward e preparei o café da manhã. “Preparei" é só modo de falar, pois só arrumei torradas e suco em uma bandeja. Uma hora depois, voltamos para o convés e ficamos falando bobagens enquanto passávamos protetor solar um no outro.

Edward tentou me ensinar a velejar novamente. Dessa vez, prestei mais atenção e consegui aprender algumas coisas. Ficamos um bom tempo só velejando, curtindo o Sol e o clima mais que agradável.

Perto do horário do almoço, nos aproximamos de uma praia da qual eu nunca ouvi falar, mas Edward me garantiu que eu ia gostar. Abandonamos o veleiro ali perto e nadamos até lá. Ele tinha razão... Eu adorei o lugar! Areia branca, maré baixa, água límpida e totalmente vazia.

Insisti para procurarmos conchinhas, pois eu queria ter lembranças sólidas dos dias mais felizes da minha vida. Edward me ajudou, porém ficou provocando-me, sempre tentando puxar os laços do meu biquíni. Ele não era muito fã de sunga, por isso usava apenas um bermudão azul.

Eu adorava a sensação da areia úmida nos meus pés e o cheiro do mar. Nada me incomodava, nem a minha pele ficando um pouco avermelhada ou o fato de não saber onde estava. Eu só conseguia pensar em perfeição... Tudo para mim era perfeito.

Edward PDV

Eu estava envolto em uma total paz. Em harmonia com o ambiente e com a garota que segurava minha mão. Nem me lembrava das dezenas de problemas que me esperavam em Los Angeles. E, definitivamente, não dava a mínima para a reação do governador quando soubesse que eu estava namorando Isabella.

Espera!

Ela sabe que estamos namorando, certo? Bem, se não sabe, vai passar a saber agora.

- Isabella...

- Sim? - Fitou-me com mechas de cabelos ondulando em seu rosto.

- Eu quero te dar uma coisa. - Fiquei de frente para ela e tirei do meu dedo mindinho o anel com o brasão da minha família, o qual tinha ganhado do meu avô quando completei 12 anos. - Não é grande coisa, mas tem valor sentimental pra mim. - Peguei sua mão direita e coloquei o anel em seu anular. - Enquanto esse anel estiver com você... - Aproximei sua mão dos meus lábios. - Eu sempre estarei por perto. - Beijei o local.

Isabella ficou bastante surpresa, mas o brilho em seu olhar me deu a certeza de que tinha consciência do compromisso que estabeleci. Não senti que estava sendo precipitado, seguia, sem hesitar, a minha intuição, e me sentia muito bem com isso.

- Obrigada. - Deu um grande sorriso.

- Vem cá. - A puxei para mim e lhe beijei.

Enquanto saboreava seus lábios e língua, minhas mãos correram para suas costas e finalmente consegui puxar o laço que segurava o biquíni no lugar.

- Edward! - Tentou ajeitar o biquíni. - Você é traiçoeiro... - Estreitou os olhos, fingindo revolta.

- Não sou. Juro que sou 100% confiável. - Amarrei o biquíni novamente e Isabella sorriu.

- Melhor assim. Seria estranho ficar pelada aqui.

- Concordo. - Puxei o laço da parte de baixo e a peça quase caiu aos seus pés.

- Você não vai voltar vivo!

Gargalhei com vontade.                                                                                  

- Seja boazinha comigo. - Pisquei o olho.

Isabella PDV

Quando retornamos ao veleiro estávamos cansados demais para cozinhar, então fizemos sanduíches simples e devoramos em minutos. Tomamos banho para tirar o sal do corpo e o que aconteceu em seguida foi tão essencial e certo quanto respirar. Acabamos na cama, onde fizemos amor por quase duas horas. Era incrível como o tempo voava quando ficávamos concentrados em dar prazer ao outro.

Tirei um cochilo e, quando acordei, Edward não estava na cama. Percebendo que anoitecia, fui até o convés e o encontrei de pé na proa, olhando para o horizonte. Me aproximei sem fazer barulho e o abracei por trás com delicadeza. Encostei minha bochecha em seu ombro e ele acariciou minha mão, demonstrando contentamento com minha presença.


I Got You - Nick Carter
                                                                                                   
As pessoas me dizem que você fica onde você pertence
Mas toda a minha vida, eu tentei provar que estão errados
Eles dizem que eu estou procurando
Algo que não pode ser encontrado
Eles dizem que eu estou perdendo
Meus pés não tocam o chão

Mas há momentos quando você não pode negar que é verdade
Apenas um dia normal como quando te conheci
É engraçado como a vida pode ter um novo significado
Quando você chegou e mudou aquilo que eu acreditava em
O mundo lá fora está tentando me puxar para dentro
Mas eles não podem me tocar
Porque eu tenho você ...

Eu tenho você... oh yeah

Eu quero lhe agradecer por todas as coisas que você fez
Mas a maioria por ter me escolhido para ser o único
É engraçado como a vida pode ter um novo significado
Quando você chegou e mudou o que eu acredito
O mundo lá fora está tentando me puxar para dentro
Mas eles não podem me tocar
Porque eu tenho você ...

E ele bate em mim quando eu chego para você
Que eu tenho medo que você não vai estar lá
Talvez eu seja muito profundo
Mas eu não me importo ...

Eu estou exatamente onde eu pertenço
Eu tenho você
Sim, provar que estão errados
Eu tenho você, yeah
Não posso negar que é verdade, não
Eles não podem me tocar, baby

Eu tenho você ...
Eu tenho você ...
Exatamente aonde eu pertenço
Oh yeah ..
Eu tenho você baby ..
Exatamente aonde eu pertenço ..
Não posso negar o que é verdade ..
Não, eles não podem me tocar,
Porque eu tenho você



(...)

Domingo. Poxa, já era mesmo Domingo?

Sabendo que só tínhamos a parte da amanhã para ficarmos juntos, pois à tarde voltaríamos para a cidade, não fiquei de lamentações e mantive meu bom humor.

Depois do café da manhã, ficamos deitados no sofá conversando sobre os Filhos da Democracia. Contei para ele como aquilo afetou Jasper e, consequentemente, lhe explique como funcionava nossa amizade. Um sempre protegendo o outro. Edward mostrou interesse em conhecê-lo melhor e eu não pude deixar de ficar feliz com isso.

Edward também quis saber para onde eu pretendia ir quando lhe disse na torre do sino “vou embora”. Não queria tocar no assunto, mas, como insistiu, acabei lhe contando o meu plano de passar um tempo na Austrália. Ele inicialmente ficou calado, só passando seus ósculos escuros por minha coxa, mas depois entendeu. Para Edward, ficou claro que eu queria uma vida além do Democracy, além de Los Angeles.

Como o Sol não apareceu e uma chuva fina caía lá fora, permanecemos dentro da cabine. Não foi nem um pouco tedioso, pois com o desejo sexual sempre à flor da pele, vivenciamos experiências maravilhosas.

Por volta das 13:00h, fui até o convés e me entreguei à chuva fraca. Fiquei de olhos fechados, apenas sentidos as gotas gélidas em meu rosto. Edward não falou nada, mas senti o conforto de sua presença.

- Por que agora sempre me chama de Isabella? - Sabia que ele entenderia onde estava querendo chegar.

- Gosto do seu nome... - Suspirou. - Além disso, acho que é uma boa forma de desvencilhá-lo do apelido idiota que inventei.

Abri os olhos e ele estava bem na minha frente.

- Talvez isso não dependa mais só de você.

- Torço para que esteja errada.

Sem falar nada o abracei e Edward afagou meus cabelos. Ficamos um tempo calados, até que ele perguntou:

- O baile do centenário do Democracy vai ser nesse Sábado. Gostaria de ir comigo?

Eu não queria comemorar a existência da instituição e não consegui aceitar o convite de imediato.

- Vai ser tão bom assim?

- Não é isso. É que eu organizei quase tudo, gastei muito tempo e esforço... Só queria ver como ficou no final das contas.

- Entendo. - Fui sincera. - Nesse caso, eu aceito o convite. - O fitei sorrindo.

- Legal. - Começou a desabotoar a blusa que eu vestia. - Que tal um último mergulho?

- Adoraria. - Rocei meus lábios em seu maxilar.

(...)

Lá estava eu, de volta ao Democracy.

Estacionei o Mustang no lugar de costume e, assim que saí do veículo, avistei Edward. Ele caminhou em minha direção com sua elegância natural e me lançou um magnífico sorriso. Nos cumprimentamos com poucas palavras e seguimos para o prédio. Aquele até poderia ter sido um dia como outro qualquer, se Edward não tivesse colocado seu braço em volta dos meus ombros, assumido publicamente o nosso relacionamento.

O simples gesto atraiu os olhares de todos, nos tornando novamente o centro das atenções. Recolocando os malditos holofotes sobre nossas vidas. E não era para menos, pois ambos éramos odiados e conhecidos como os alunos que destruíram a imagem do colégio.

Gostei de Edward me assumir como sua namorada, mas, mesmo já tendo passado por situações muito piores, não pude deixar de ficar incomodada com a forma com que nos encaravam.

Eu até já podia sentir os boatos se alastrando pelo lugar como uma espessa fumaça de raiva e inveja.

Edward PDV

Por onde passávamos, havia murmúrios e olhares tortos. Aquilo não me incomodou muito, mas sentia Isabella bastante tensa.

Durante as aulas, procurei me concentrar em uma tentativa tardia de melhorar minhas notas. Então, após a aula de Educação Física, ao chegar ao armário, fui abordado por ninguém menos que Tânia. 

- Oi, Ed.

A encarei perplexo com sua cara de pau. Tânia não falou comigo durante todo o período em que os Falcons me perseguiram.  Agora, quando todos sabiam do meu namoro com Isabella, recuperou o interesse em mim?

- O que quer?

- Nossa, não precisa ser grosso. - Encostou-se no armário. - Só vim pedir uma coisa.

- Não tenho nada que seja do seu interesse.

- Tem sim. - Sorriu. - Me empresta seu caderno? Te vi fazendo anotações das aulas. É que passei o dia com dor de cabeça e acabei não entendendo nada de nada.

- Pede o caderno de outra pessoa. - Sabia que aquilo era uma patética desculpa para se aproximar.

- Está mesmo namorado aquelazinha?

- Não é da sua conta, mas sim, estou. - Preferi deixar bem claro.

- Eu nem acredito! - Riu sem humor. - Sua mãe me contou o acordo que você fez com seu pai por causa daquele tal de Jasper e eu acho...

- Não se meta na minha vida. - A interrompi.

- Que droga, Ed, não pode namorar aquela vadia. Gente como nós está no topo da cadeia alimentar. Não nos misturamos! Aquela Bella está abaixo de tudo que já existiu aqui. Eu sou a líder das animadoras e você sempre será um Falcon. É um líder nato, temos que ficar juntos! Vamos esquecer o passado!

Fixei bem meus olhos nos de Tânia e falei:

- Bebeu a água oxigenada que passa no cabelo? Existe vida fora do Democracy, sabia? - Bufei de raiva. - Eu não sou um Falcon. E, definitivamente, não quero ficar com você!

- Não é um Falcon? Seus dias estão contados. Logo será adorado novamente e tudo voltará a ser como antes.

- Cala a boca!

- Me empresta o caderno? Acho que depois de ter me traído mereço ao menos isso. - Provocou estendendo a mão.

- Me deixa em paz! - Praticamente joguei o caderno em cima dela.

- “Agora e sempre... Falcons! Falcons! Falcons!” - Com um sorriso, citou o grito de guerra do time.

Imediatamente a deixei sozinha.

Isabella PDV

De volta à detenção, esperamos o Sr.Gray dormir e fugimos para a torre do sino. Lá, Edward me ajudou a relaxar com seus beijos de tirar o fôlego. Feito dois loucos, ficamos nos “pegando” no pequeno cubículo, praticamente cambaleando pelo local.

Sem poder descolar meus lábios dos seus, coloquei a mão para trás tateando algo para me apoiar. Então agarrei uma corda grossa, apoiando meu peso nela. Só quando o sino começou a soar foi que me dei conta do que fiz. O som quase nos deixou surdos e devia estar ecoando por todo o Democracy.

- Não acredito que fez isso. - Edward gargalhava muito.

- Por quê?

- Esse sino não é tocado há vinte anos. Ele só voltaria a badalar no dia do centenário.

- Ah... - Olhei para sino acima de mim. - Foi mal. - Me desculpei com o sino e Edward riu ainda mais.

- Temos que fugir. - Puxou-me pela mão prevendo que algum funcionário já estava a caminho.

Atravessamos o pátio correndo, quase certos de que o Sr.Gray tinha acordado. Por Edward conhecer o colégio melhor do que eu, pegamos um atalho e alcançamos o prédio pela lateral. As janelas da sala estavam abertas e tivemos que pular uma delas para conseguir voltar à detenção. Rapidamente sentamos em nossas carteiras, cada uma de um lado da sala. A grande questão é que o professor não estava lá.

- Será que ele foi nos procurar? - Indaguei ofegando.

Mal calei a boca e o Sr.Gray apareceu na porta.

- Onde vocês estavam? - O homem parecia um bicho.

Edward trocou um olhar comigo e respondeu tranquilamente:

- Como assim?

- Como assim? - Ele se irritou. - Fugir da detenção é uma falta grave, Sr.Cullen!

- Mas não saímos daqui. - Fingiu-se de inocente.

- Ele tem razão. - O apoiei. - Ficamos sentados aqui o tempo inteiro.

- Acham que sou burro?

- Não acho que o senhor é burro, mas, desculpe dizer, o senhor estava dormido. O sino começou a tocar e você acordou meio atordoado. Talvez tenha feito uma pequena confusão em sua cabeça e achado que a sala estava vazia. - Edward era muito persuasivo.

- Pense bem, o senhor acabou de voltar do corredor. É o único jeito de chegar aqui, então como podemos ter fugido e aparecido do nada? - Minha expressão era de mais pura seriedade.

O Sr.Gray olhou para o vazio, com a cabeça cheia de dúvidas e possivelmente questionando sua sanidade.

- Bom... - Pigarreou. - Estão liberados por hoje. - Ficou constrangido.

Edward e eu pegamos nossas coisas e só quando nos afastamos da sala foi que caímos na gargalhada.

Quando chegamos ao estacionamento, Edward me encostou contra o Mustang e senti que havia algo o incomodando.

- O que foi? - Coloquei minhas mãos em seu rosto.

- Tem um lance que preciso te contar.

- Estou ouvido. - Fiquei séria.

- Lembra quando consegui a bolsa de estudos para o Jasper e você perguntou “foi difícil?”?

- Sim... Onde quer chegar?

- Na época eu não me importava com nada... - Fez uma pausa que me deixou angustiada. - Meu pai queria que eu voltasse a ser o líder que era antes, então, em uma atitude meio impensada, prometi que voltaria para o time de basquete se ele me ajudasse a resolver a parada do Jasper.  

- O quê? - Involuntariamente o afastei.

- É o seguinte... - Passou a mão pelos cabelos. - Depois que Mike foi expulso e eu saí do time, Emmett se mandou e o treinador se demitiu. Tudo isso junto acabou com os Falcons. A diretoria anda meio desesperada, porque com a temporada de campeonatos chegando não tem ninguém dos “tempos de glória” para carregar o time nas costas. Quando você me pediu aquele favor, a direção já tinha me oferecido a posição de capitão, pois achavam que os escândalos logo seriam esquecidos. Inicialmente eu recusei, mas...

- Você? Capitão dos Falcons? - Não consegui disfarçar a minha perturbação, muito menos o desprezo pelo time.

- Tecnicamente ainda não sou um deles.

- Só pode ser brincadeira. - Balancei a cabeça sem conseguir acreditar.

- Eu também não estou feliz, Isabella. O time inteiro me odeia. Vai ser um inferno voltar como capitão.

- Desculpe-me. - Obriguei-me a lembrar que ele fez o acordo por minha causa. - Não tem como se safar dessa?

- Não sem prejudicar Jasper.

- Que droga! - Gemi.

- Nada entre nós vai mudar. - Me abraçou.

O encarei com amargura e comecei a citar o grito de guerra dos Falcons:

- “Agora e sempre... Falcons! Falc...” - Edward colocou os dedos em minha boca, me impedido de continuar.

- Foi você quem me disse: nem sempre o que fazemos define quem somos.

Afundei meu rosto em seu peito.

 (...)

No dia seguinte, cheguei ao Democracy e Edward não estava me esperando no estacionamento. Logo imaginei que estaria chateado por causa da minha reação quando me contou que seria capitão do time. Como vi que seu carro estacionado, segui para o prédio, louca para encontrá-lo.

Os alunos continuavam a me encarar, só que dessa vez tinha algo diferente pairando no ar. Sentia o peso de seus olhares como jamais senti antes. Tomada pela estranha sensação de estar despida, apressei o passo evitando olhar para eles.

Assim que atravessei as grandes portas, uma animadora de torcida passou por mim dizendo:

- Sinto como se meu coração fosse parar... - Debochou.

Confusa, segui em frente. No corredor apinhado de alunos, ouvi murmúrios e risadas. Muitas pessoas seguravam um tipo de panfleto a que não dei importância por estar indisposta. Serpenteei pelo local e, com dificuldade, consegui chegar até meu armário.

Assim que me deparei com um grande F vermelho pintado no armário, meu estômago embrulhou. Eu bem sabia que era F de Falcons. Nervosa, abri o cadeado e, ao puxar a porta, centenas de papéis caíram aos meus pés. Olhei para os lados e todo mundo estava me observando. Sem entender ao certo o que estava acontecendo, peguei uma folha que ficara presa na porta e senti um frio percorrer minha espinha.

Minha expressão petrificou ao ver a foto da ficha que dei a Edward, ampliada, expondo meu antigo rosto. Logo abaixo, havia escrito “Isabella Duas Caras” e, atrás, a última carta que escrevi para ele.

Com os olhos injetados, me virei devagar e notei finalmente que os panfletos espalhados pelo Democracy eram iguais ao que acabara de deslizar da minha mão.

Pela forma com que os alunos me olhavam, pude perceber que já tinham ligado todos os pontos da minha história. Alguns ainda lembravam da menina esquisita que sentava na última carteira, outros estudavam ali desde sempre e participaram das brincadeiras cruéis de Edward contra mim. Mas principalmente, agora se conscientizavam de que a garota que abalou as estruturas da instituição era a vulgarmente conhecida como Isabella Duas Caras. 

Pena, curiosidade, raiva e confusão me rodeavam, emanando de todas aquelas pessoas que me assistiam como se eu fosse uma aberração, em grande parte, por causa de quem fui e do que fiz. 

Não suportando a exposição, como uma verdadeira covarde, fechei os olhos e fugi. Esbarrei em várias pessoas e tentei desesperadamente correr para fora do colégio. Mergulhada na desordem mental, mal percebi quando me choquei contra alguém tão forte que me fez cair sentada. Ao abrir os olhos, me deparei com Tyler e, logo atrás dele, todos os Falcons, incluindo as animadoras de torcida. Sem conseguir me levantar, arfei com o coração batendo feito um tambor.

Tânia assumiu a frente e se curvou para dizer bem na minha cara:

- Sua vingança contra Edward afetou diretamente os Falcons e o Democracy. Achava mesmo que íamos deixar isso barato, Isabella Duas Caras?

O soar do apelido me arrepiou inteira e eu achei que vomitaria.




- Você é mesmo a garota deformada com quem fizemos o Edward transar anos atrás? - Tyler debochou. - Que mudança. Incrível!

- É ela sim. - Outro Falcon se aproximou rindo. - Não se lembra que o time inteiro assistiu o showzinho do andar superior da biblioteca?

- Hum... É verdade. - Tyler piscou o olho.

Aquelas palavras me provocaram tamanha dor que gemi, rastejando para longe deles.

- Cadê toda a sua coragem, Isabella Duas Caras? - Tânia me perseguiu de forma implacável. - Você não vai a lugar algum. - Segurou-me pelos cabelos e me manteve abaixo dela.

Alguns professores apareceram tentando dissipar o tumulto e isso só aumentou o caos.

- Não... me chame assim. Por favor. - Tentei ser forte, mas só aticei a ira dela.

- Isabella Duas Caras! Isabella Duas Caras! - Ficou me rodeando e lágrimas escaparam dos meus olhos. Os fechei, sentido o apelido dilacerar minha consciência. Era como se tivesse voltado a ser a mesma criança vulnerável do passado. Tremendo muito, tapei os ouvidos e uma angústia antiga fervilhou em mim. - Pare de chorar, sua vadia fraca! Você infernizou a minha vida e eu vou infernizar a sua! - Esbravejou. - Isabella Duas Caras! Isabella Duas Caras! Isabella Duas Caras!

Eu não conseguia me achar no meio daquelas centenas de vozes. A repressão da diretoria, o xingamentos dos Falcons, a piedade vã dos alunos e, principalmente, a voz de Tânia, a qual sussurrava em meu ouvido: você ainda é um monstro! É horrorosa, Isabella Duas Caras... Eu te odeio! Te odeio, Duas Caras!

De repente, várias lembranças explodiram em minha cabeça em um caos de imagens e sentimentos que foi impossível de administrar. Via-me bem pequena, com medo de ir para o colégio, Edward me cutucando com um graveto, os tratamentos médicos pelos quais eu passei, gritos de desespero após terríveis pesadelos; Agulhas penetrando minha pele em uma clínica na Rússia, o vídeo que gravei, os olhares de repulsa e fogo... Muito fogo.

- AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH! - A imensa angústia estilhaçou em pequenos pedaços e cada um deles se tornou um grito de dor. Caí para trás e o fogo começou a subir por minhas pernas e se alastrou rapidamente pelo resto do meu corpo. - ESTÁ QUEIMANDOOO! - Me debatia, não suportando a dor alucinante. Passei as mãos desesperadamente pelo rosto e, embora ele estivesse intacto, eu podia sentir o ardor das chamas. - ALGUÉM ME AJUDE! ESTÁ QUEIMANDOOOO! - Minha garganta parecia que ia explodir tamanha a força com que berrava e mesmo assim ninguém me socorria. - ESTÁ ARDENDO! MEU DEUS! MINHA PELE! AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH! - Agitava braços e pernas, mas nem isso aplacou a fúria das chamas que brotavam de dentro de mim. AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH! SOCORROOOOOOO!

Edward PDV

- Vai, cara! Rápido! - Gritei.

- Estou tentando!

Ouvi o chacoalhar do molho de chaves.

Os Falcons tinham me prendido no armário de limpeza e o novo zelador tentava abrir a porta. No cubículo escuro, entre vassouras e baldes, enlouquecia pressentido que algo grave estava acontecendo.

Assim que o zelador abriu a porta disparei pelos corredores. O fato de as salas estarem vazias só me deixou mais tenso. Sem saber ao certo para onde ir, ouvi gritos e me direcionei para o corredor principal.

Assim que cheguei ao corredor, fiquei chocado com a cena. O colégio inteiro estava espremido no local, em total silêncio observando Isabella, a qual se debatia no chão aos berros. Dois professores tentavam lhe acalmar, mas ela parecia não ouvir. Saí empurrando quem estava na minha frente e alcancei Isabella.

- O que aconteceu? - Olhei para o diretor.

- Não sei, mas chamei uma ambulância.

Sentei no chão e coloquei a cabeça dela em meu colo. Pedi para as pessoas se afastarem e Isabella continuou a gritar.

Isabella PDV

Com a visão embaçada, vi Edward e ele colocou a mão em minha testa me garantido que não havia fogo algum, mas eu o sentia. Senti as chamas me consumindo.

- Olhe pra mim, você está segura. Não tem fogo! Eu juro! - Segurou-me contra o peito.

Aos poucos, fui sendo tomada por uma dormência tranqüilizadora e não senti absolutamente nada, nem mesmo os braços de Edward. Então um sono irresistível foi me puxando para a escuridão e minhas pálpebras se tornaram pesadas como chumbo.

(...)

Edward PDV




Cheguei ao Democracy sem nenhuma vontade de assistir as aulas. Fiquei dentro do carro sem saber para onde ir.

Já fazia dois dias que não via Isabella. A última vez que tive notícias dela foi quando me recusei a sair do hospital para o qual foi levada no dia que desmaiou. Seus pais, obviamente, não foram nada educados comigo e exigiram que eu mantivesse distância da filha.

O médico que atendeu ela foi mais condescendente e me explicou o que aconteceu. Pelo que entendi, Isabella sofreu um ataque de pânico. Ela perdeu o controle das emoções e do comportamento, desencadeando, assim, uma forte alucinação. Ele me garantiu que ela ficaria bem após alguns dias de descanso e algum acompanhamento psicológico.

Eu ainda estava uma fera com Tânia e comigo mesmo, pois fui um idiota em não lembrar que a ficha de Isabella e as cartas que trocamos estavam dentro do caderno que emprestei à filha da mãe. Os Falcons deveriam estar se sentindo muito espertos por terem atingido a mim e a Isabella com um golpe só.

Até tentei usar a minha antiga influencia para exigir uma punição adequada para eles, mas, infelizmente, os envolvidos na cruel “brincadeira” só pegaram algumas semanas de detenção. Para não criar maiores conflitos, liberaram minha namorada e eu do castigo, mas a sensação de impunidade continuava.

Eu já não sabia o que fazer para ter notícias de Isabella. Seu celular continuava desligado e todas as minhas tentativas de convencer seus pais a me deixarem vê-la foram absurdamente frustradas.

Então, no momento em que liguei o carro para ir embora, avistei o Mustang preto entrar no Democracy e estacionar a alguns metros de mim. Mais do que aliviado, saí do Volvo e o que vi deixou-me muitíssimo confuso.

Isabella saiu do carro com o uniforme totalmente alterado. Além do decote extravagante, exibia também pernas e barriga. Ela estava bastante maquiada e de sua boca saía fumaça de cigarro.

Bella PDV

Dei mais uma tragada no cigarro e analisei o ambiente à minha volta. Em seguida, ajustei o decote e dei uma bagunçada no cabelo.

Logo que bati a porta do carro, o Falcon veio até mim cheio de questionamentos no olhar.

- Você está bem?

Ri de sua pergunta idiota.

- É claro que estou bem. Estou perfeita!

- Tentei falar com você antes, mas não consegui.

- Fica frio, Falcon. - Joguei o cigarro fora e segui para a entrada do colégio com ele no meu pé.

- Sei que tive uma parcela de culpa no que aconteceu, mas não foi intencional. Escuta, eu também não sabia que o time nos assistiu na biblioteca. Na época, sequer imaginei e...

- Eu. Estou. Ótima! - Ele era surdo? Ia ficar tagarelando aquelas merdas pra mim o dia todo?

- Sinto muito por estar sendo chato, mas estou mesmo preocupado com vo...

Desliguei-me do que Edward estava falando e percebi que, por onde eu passava, os alunos paravam para me observar. Estavam cheios de curiosidade e alguns até com medo. Não me deixei intimidar pela escória do Democracy e segui meu caminho de cabeça erguia.

Eles podiam me julgar o quanto quisessem, pois, em breve, eu acabaria com a “festa” de todo mundo.

Edward PDV

Fiquei perto de Isabella o tempo inteiro, mas mesmo assim ela insistia em me ignorar. Nem precisei perguntar para ter certeza de que estava arquitetando alguma coisa, mas infelizmente minhas desconfianças não encontravam fundamento em seu humor alterado. Em alguns momentos, até tive a nítida impressão de que ela estava se divertindo com os olhares de medo de alguns alunos.

Por mais que eu quisesse me convencer de que a garota estava diferente só na aparência, em seus olhos encontrei ódio, desdém e o antigo veneno que arrancou a minha paz.

Durante as primeiras aulas, me obriguei a ser paciente, pois Isabella tinha passado por muita coisa e talvez precisasse de um tempo para perceber que não quis magoá-la. Só que isso mudou quando ela jogou o cabelo para o lado e vi algo em seu pescoço que me deixou irritado e ao mesmo tempo perplexo.

Assim que tive oportunidade, praticamente a reboquei até o ginásio a fim de ter uma conversa séria. Eu precisava de respostas e necessitava enxergar Isabella do mesmo modo que antes.

- O que está acontecendo? Está tentando me punir com sua súbita mudança de visual e atitude porque vou voltar para o time de basquete? - Suspirei tentando tocar seu rosto e ela não permitiu. - É por causa do que a Tânia fez? Por favor, me diga o que está havendo com você? Que marcas são essas no seu pescoço?

- Marcas? - Fingiu-se de desentendida com um sorriso irônico que eu não via há um bom tempo.

- Isabella, tem marcas de chupões no seu pescoço. Eu não sou cego, nem idiota. Por que está fazendo isso comigo? - Me irritei.

- Que saco! - Revirou os olhos tirando do decote um cigarro e um isqueiro. - Como a sua pessoa não é mais a minha preocupação, pois já me vinguei de você, a gente até podia se divertir juntos... - Deu uma tragada. - Só que isso não vai dar certo, porque você é um babaca possessivo e eu não curto isso. Nunca serei domada e gosto de farrear! Ficou claro?

Permaneci quieto, fitando-a com um nó preso na garganta. Nem conseguia pensar em palavras que expressassem minha decepção.

- Não entendo... - Murmurei, balançando a cabeça. - Eu achei que gostasse de mim.

Ela gemeu nitidamente impaciente.

- Parte de mim gostava, mas essa parte... - Deu um passo à frente e falou rente ao meu rosto. - Morreu. A Isabella que conheceu está morta. Esse mundo não é para fracos, Edward. - Piscou o olho e se afastou. - Eu tenho muitas coisas para planejar e não posso ficar perdendo o meu tempo você.

Engoli em seco não reconhecendo a garota diante de mim. Agarrei-me ao orgulho para não me mostrar abalado, mas, se Isabella prestasse o mínimo de atenção em mim, veria que suas palavras estavam me ferindo mais do que a vingança que executou.

- Você não é quem eu pensei que fosse. Me arrependo profundamente de ter te... - Não consegui completar a frase.

- Amado? - Arqueou a sobrancelha com sarcasmo. - Qual é! Você não ama nada além de si mesmo e da sua vidinha de playboy, então não me venha com esse papo idiota! - Enfureceu-se e foi para a saída do ginásio.

Perdi o controle e baixei a guarda, reagindo de uma forma que eu não esperava.

- É só isso? - Falei alto e ela olhou para trás. - Todas as cartas, todos os momentos que passamos no veleiro... Não significaram nada pra você? - Abri os braços. - Seu maior objetivo na vida é me enlouquecer de todas as formas possíveis e imagináveis? Então se dê por satisfeita... - Vi-me completamente perdido. - VOCÊ CONSEGUIU! - Gritei irado. - VOCÊ CONSEGUIU, ISABELLA!

- QUE MERDA! LEIA OS MEUS LÁBIOS! ELA. ESTÁ. MORTA! - Berrou atirando contra mim o anel que lhe dei.

Eu queria socar algo para extravasar a frustração, mas só consegui ficar parado olhando para o anel no chão.

Após alguns minutos, abandonei o ginásio e fui para o corredor, o qual se lotou de alunos que saíam das salas para o almoço. Tentei me mandar do colégio o mais rápido possível, mas a desordem de costume me deixou ainda mais desorientado.

Quando eu achei que nada mais poderia me perturbar, Tyler esbarrou em mim, soltando uma risada provocadora. Imediatamente parei e ele seguiu seu caminho. Olhei para o lado e vi que os caras do time de beisebol estavam indo para o treino. Então, em uma atitude impensada e imatura, arranquei o taco de um deles e segui o imbecil.

- Ei, Tyler!

Assim que ele olhou para trás acertei em cheio o seu rosto. Tyler desabou inconsciente e a gritaria alastrou-se. Pouco me importando, soltei o taco e me considerei, finalmente, expulso. Sinceramente, foi alívio. Eu estava livre do Democracy!


November Rain - Guns N' Roses

Quando eu olho nos seus olhos
Eu posso ver um amor reprimido
Mas, querida, quando te abraço
Você não sabe que eu sinto o mesmo?
Pois nada dura para sempre
E ambos sabemos que corações podem mudar
E é difícil carregar uma vela na fria chuva de novembro

Nós estivemos nisso por um longo tempo
Só tentando matar a dor
Pois amantes sempre vêm, e amantes sempre vão
E ninguém realmente tem certeza de quem está se deixando ir hoje
Indo embora
Se nós pudéssemos ganhar o tempo para deixar tudo na linha
Eu poderia descansar minha cabeça
Apenas sabendo que você é minha, toda minha
Portanto, se você quer me amar
Então, querida, não se reprima
Ou eu acabarei caminhando na fria chuva de novembro

Você precisa de um tempo... pra você?
Você precisa de um tempo... sozinha?
Todos precisam de um tempo... para si
Você não sabe que precisa de um tempo... sozinha?

Eu sei que é difícil manter aberto o coração
Quando, até mesmo os amigos parecem te prejudicar
Mas se você pudesse curar um coração partido
Não haveria tempo para te encantar

Às vezes eu preciso de um tempo... pra mim
Às vezes eu preciso de um tempo... sozinho
Todos precisam de um tempo... para si
Você não sabe que precisa de um tempo... sozinha?

Quando seus medos baixarem
E as sombras ainda permanecerem
Eu sei que você pode me amar
Quando não houver ninguém para culpar
Então, deixa pra lá a escuridão
Nós ainda podemos achar um caminho
Pois nada dura para sempre
Nem mesmo a fria chuva de novembro

Você não acha que precisa de alguém?
Você não acha que precisa de alguém?
Todos precisam de alguém
Você não é a única!
Você não é a única!


(...)

Sem olhar para trás, fui para o meu carro e encontrei Jasper encostado nele.

- Eu vim assim que pude, mas estou proibido de entrar no Democracy. Você falou com ela? Precisamos conversar sobre a...

- Pare. - Pedi abrindo a porta do Volvo. - Estou cansado e Isabella está... morta. - Repeti as palavras da mesma.

- É que... - Ofegou. - Isso pode ser mais literal do que imagina.

- O quê?

(...)

Em uma mesa de uma lanchonete perto do Democracy, Jasper ficou fazendo rodeios e medindo palavras sobre um assunto que eu não conseguia compreender.

- Cara, eu estou com a cabeça muito cheia e não estou entendendo nada. Como assim Isabella e Bella não são a mesma pessoa? São gêmeas?

- Edward, não tem um jeito fácil de explicar isso, então imprimi esse artigo pra você. - Tirou um papel da mochila e me entregou.

Hesitei em ler, mas acabei sendo vencido pela curiosidade.


Transtorno Dissociativo de Identidade


Assim que li o título, troquei um olhar com Jasper e ele me incentivou a continuar.

“O Transtorno Dissociativo de Identidade, originalmente denominado Transtorno de Múltiplas Personalidades, é uma condição mental onde um único indivíduo demonstra características de duas ou mais personalidades ou identidades distintas, cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio. O pressuposto é que ao menos duas personalidades podem rotineiramente tomar o controle do comportamento do indivíduo. Em alguns casos, isso é desencadeado pela vivência de situações traumáticas, como maus tratos (de natureza física ou psicológica), acidentes e desastres.

Apesar de ser classificado como "transtorno mental", a condição não tem relação com a esquizofrenia, ao contrário do que acredita a maioria das pessoas. O termo "esquizofrenia" vem das raízes das palavras "mente dividida", mas refere-se mais a uma fratura no funcionamento normal do cérebro do que da personalidade.

O indivíduo que sofre uma dissociação não se desliga totalmente da realidade, ele pode aparentar ter múltiplas personalidades para lidar com diferentes situações. Quando ele não pode lidar com uma situação particularmente estressante, a consciência do indivíduo acredita estar dando à outra personalidade a chance de eliminar a causa da situação. No transtorno de personalidade não há amnésias, mas uma conduta rotineiramente inadaptada socialmente e isso pode gerar entre as personalidades um sentimentos de rivalidade ou fraternidade. Com tudo, o transtorno continua controverso.”


Parei pra respirar fundo e encarei Jasper.

- Está me dizendo que Isabella tem esse transtorno?

- Sim.

- Mas... - Cocei a testa, aturdido. - Como assim? Como funciona?

- Esse transtorno foi se desenvolvendo com o tempo. As cicatrizes, os maus tratos... Você sabe do que estou falando. - Ele não quis me culpar, mas já estava me sentido assim. - Isabella não conseguia confrontar situações emocionalmente estressantes, e era aí que sua outra personalidade, “Bella”, assumia o seu lugar. Eu achei que não era grave... Achei que... - Fez uma pausa, meio angustiado. - Antes acreditei que era só um meio dela se proteger, porque Isabella parecia estar sempre no controle. Seu outro “eu” seguia de algum jeito a vontade dela. Embora as duas aparentassem ser extremamente diferentes, seguiam a mesma raiz de sentimentos. Está entendendo? - Fitou-me cheio de dúvidas. - Por exemplo, tanto Isabella como Bella me vêem como seu melhor amigo. As duas sempre se sentiram atraídas por você, e elas odeiam os Falcons e o Democracy. O lance é que reagem cada uma a seu jeito.

- Preciso de um segundo.

Refleti por um tempo. Embora aquela enxurrada de informações pudesse assustar e confundir qualquer um, eu consegui assimilar mais rápido do que imaginava.  

Sempre senti que havia algo de diferente na garota. Alguns momentos ela era manipuladora e venenosa, em outros era compreensiva e meiga. Não era uma simples mudança de humor, todo o seu corpo reagia às oscilações de personalidade. Analisado bem tudo que vivi, até podia saber com quem estive em cada momento.

- É Bella quem sempre está fumando, certo? - Perguntei.

- Exato.

- Isabella é meio tímida e engraçada.

- A conheço há muitos anos e posso te garantir que está certo. - Sorriu.

- As duas se vingaram de mim?

- Acho que sim, elas tinham a mesma mágoa e o mesmo propósito. Só que tudo mudou quando Isabella conseguiu te perdoar, você sabe, no dia em que te socorreu na rua. Ela aceitou que o que sentia por você era maior do que o ódio. Foi esse mesmo sentimento que pareceu fortalecê-la o suficiente para lidar com as emoções. Pelo que a própria me contou, Bella ficou meio perdida dentro dela sem encontrar uma quantidade de ira e medo suficientes que lhe trouxessem à tona. 

- Por que você e Bella ficam falando como se Isabella tivesse morrido? - Aquilo me deixava aflito.

- Eu não tenho certeza. Depois da sacanagem que os Falcons fizeram, fiquei com Bella quase o tempo todo... - Balançou a cabeça, lamentando. - Não há nela sequer vestígios de Isabella. Temo que a outra personalidade tenha assumido de vez o controle, como se a volta de Bella tivesse... Sei lá, consumido Isabella. A maluca está fazendo coisas que de forma alguma Isabella permitiria. Coisas que eu garanto que não vai querer nem saber.

- Não sei o que fazer. - Passei a mão pelos cabelos, desejando estar em um mero pesadelo.  

- E eu ainda não contei a pior parte.

- Que parte? - Franzi o cenho.

- Amanhã o Democracy completa 100 anos e Bella quer vingança. Não me contou o que fará, mas ela está fora de controle.

(...)

Bella PDV

Empurrei com o pé a porta de um dos cubículos do banheiro feminino da boate Blue Skies. A mulherada ali mal percebeu quando entrei no cubículo carregando Tânia, a qual estava totalmente inconsciente.

Quando Tânia saiu do Democracy, eu a segui por todos os lugares, shopping, sua casa e finalmente a boate, onde se encontrou com um dos Falcons. A imbecil em momento algum percebeu que eu estava em seu encalço, claro que estar metida em blusão com capuz me ajudou muito. Esperei com paciência a melhor oportunidade, então, quando seu acompanhante se afastou para comprar bebidas e Tânia ficou dançando sozinha na pista, me aproximei. Tomei proveito da batida eletrônica, da confusão de luzes piscando e lhe segurei por trás, cobrindo seu nariz e boca com um lenço encharcado de clorofórmio.

Ninguém na boate estranhou quando coloquei o braço dela em volta dos meus ombros e a carreguei para o banheiro. Um cara até me ajudou, pois parecia que eu estava apenas sendo solidária com uma amiga que bebeu demais.   

Coloquei Tânia sentadinha no vaso e precisei lhe segurar pelo pescoço para que não pendesse para o lado. Divertindo-me muito, enfiei a mão dentro da minha bolsa transpassada e tirei de lá uma adaga.

- Como eu queria que estivesse acordada. - Ri com vontade. Coloquei a lâmina em sua bochecha esquerda e sussurrei no seu ouvido. - Vou deixar uma linda cicatriz nesse seu rostinho perfeito. Isso se chama “acerto de contas”...

(...)

Sábado, o grande dia.

Acordei por volta das 13:30h me sentido maravilhosa. O Democracy estava completando 100 anos e eu queria mais era comemorar.

Mesmo não tendo aula, vesti meu uniforme, calcei minhas botas favoritas e caprichei na maquiagem. Absurdamente linda, nem comi nada e fui direto pra rua.

Enquanto atravessava vagarosamente os portões de casa com o meu Mustang, avistei Edward encostado ao seu Volvo no outro lado da rua. Imediatamente encostei o carro e fui até ele.

- Está me seguindo? - Esbravejei abrindo os braços.

- Não... - Tirou os óculos escuros com tranquilidade. - Estou te esperando.

Estreitei os olhos com desprezo.

- Não entendeu nada do que eu falei ontem?

Edward puxou-me pelo braço e me manteve junto ao seu corpo com uma mão entranhada nos cabelos da minha nuca.

- Entendi muito bem. - Falou possessivo. - Eu te quero e sei que me quer também. Estou cansado de lutar e pensar. Tudo que eu faço dá errado... Não me importo com mais nada. - Havia mais sinceridade em sua voz do que podia imaginar. - O mundo que se dane!

- Você é um idiota. - Sorri torto.

- E você uma filha da mãe que me enche de tesão. - Largou meu cabelo e me apalpou.

Aqueles braços, cheiro, boca, sorriso convencido... Tudo nele me fazia arder e isso era impossível de ignorar.

- É isso que você quer? Sofrer? - Ironizei.

- Adoro como me faz sofrer.

Chupou meu pescoço querendo deixar suas próprias marcas. Naquele momento, não tive dúvidas de que Edward se envolvera de tal forma que já não se importava com nomes como “Isabella ou Bella”. Ele se tornara dependente do meu corpo e presença. De fato, eu achava que há muito tempo ele perdera o senso de normalidade e estava disposto a viver por instinto, como um drogado, sempre rastejando pela próxima dose. Ele estava perdido em mim e eu... em tudo.

- Vamos comemorar a droga do aniversário do Democracy. Conheço um lugar perfeito. - Sussurrou em meu ouvido.

Olhei para o meu carro e lembrei que precisava dele para logo mais.

- Vai na frente que eu te sigo, Falcon.

(...)

Edward me levou para um bar de beira de estrada bem vagabundo, já quase nos limites da cidade. Pedimos uma garrafa de tequila, sal e muito limão. Dividimos cigarros, carícias e provocações sexuais. Eu já sabia que ele tinha sido expulso do colégio por agressão e começava a enxergá-lo como um riquinho rebelde e, talvez, louco o suficiente pra mim.




Enquanto o Falcon se distraía com a sinuca, pedi para o barman aumentar o volume do rádio, pois começara a tocar uma música irada.

Coloquei meu copo em cima do balcão e, com a tequila já subindo à cabeça, fiquei dançando devagar, apenas sentido a batida e a letra.

- Só vai ficar aí e me ver queimar? Tudo bem, porque eu gosto do jeito que dói. - Cantei, gemendo quando Edward abraçou-me por trás.

A mão dele subiu da minha barriga, passou por meu pescoço e alcançou minha boca. Mordi com força seu polegar que roçou em meus lábios e o senti ainda mais ligado a mim.

Me virei e agarrei seu cabelo exigindo um beijo, só que o maldito se afastou rudemente, como se só fosse ceder quando eu dobrasse meu orgulho e pedisse. O segui até o final do bar e o empurrei contra a parede imunda.

- Não vou pedir. - Rosnei.

- Não é isso. - Fechou a cara.

Cravei minhas unhas em seu braço e ele fechou os olhos, reprimindo a dor.

- Está guardando seus beijos para a falecida? - Arqueei a sobrancelha.

Antes que eu pudesse pestanejar, Edward agarrou-me pelos cabelos e mordeu meu lábio inferior com força.

- Você não me domina. - Resmungou contra minha boca.

- Eu amo o jeito que você mente. - Sorri.

(...)

Virei a garrafa de tequila e dei um grande gole.

No banco de trás do carro de Edward, escondidos atrás dos vidros escuros, punimos um ao outro pelo simples fato de não suportamos a atração que nos enfraquecia. Sentada no colo dele, mordi seu pescoço sentido suas mãos quentes subindo por minhas coxas.

“Talvez o nosso relacionamento não seja tão louco quanto parece. Talvez seja isso que acontece quando um tornado encontra um vulcão”, dizia o rapper através do som do carro.

- Faria qualquer coisa por mim? - Lambi seu rosto.

- Sim. - Murmurou meio bêbado.

- Fuja comigo esta noite. - O encarei.

- Por quê?

- Vamos embora para bem longe.

Ele parou para pensar e o impedi de raciocinar corretamente tirando minha blusa.

- Tudo bem. - Assentiu pegando a garrafa. - Mas... Seja lá o que estiver planejando, quero participar.

- Não. - Coloquei as duas mãos em seu pescoço. - Eu sei o que estou fazendo. - Ri apertando lentamente.

Edward largou a tequila e agarrou meus pulsos, quase os esmagando. Achei que me bateria, mas, ao invés disso, direcionou minhas mãos para baixo, me fazendo tocá-lo onde ele mais desejava.

- Fique comigo para sempre, Bella.

Pendi a cabeça para trás, me sentindo meio tonta por causa do álcool.

- Sim... - Sussurrei satisfeita. Então esfreguei os olhos dizendo - Eu vou queimar tudo. - O Falcon começou a beijar meu busto e abracei sua cabeça querendo mantê-lo ali. - Tudo...

Edward desvencilhou-se e me colocou deitada no banco, em seguida, cobriu meu corpo com tequila e saiu lambendo.

- Já tenho tudo planejado. - Gargalhei sentindo cócegas. - Marquei um encontro com o zelador. Eu tenho clorofórmio sabia? Homens são tão burros! - Ri mais ainda, então gemi alto quando Edward começou a me tocar intimamente. - Eu não sou má, sou?

- É sim.

- Só vou explodir o prédio principal. O baile é no grande salão, bem depois da ala do ensino fundamental. Então, pode-se dizer... - Ofeguei. - Que eu sou muito, muito boa. - Debochei. O cheiro da bebida estava me deixando alterada.

- Como vai fazer isso? - Indagou.

- Quero você! - Sorri, tateando o rosto do cretino.

- Como vai fazer?

- Depois que o zelador apagar... Vou até o porão onde estão os oito cilindros de gás que abastecem o prédio e, com o machado que está no meu porta-malas, vou arrebentar as válvulas. Deixarei o gás se espalhar por uns vinte ou trinta minutos, fazer um rastro de gasolina até fora do prédio, ascender um cigarrinho e... - Ri alto. - BUUUUM! O Democracy vira história! - Edward parou de me tocar e encarou-me. - O quê? Tá bom... - Revirei os olhos, divertindo-me. - Confesso, todo mundo vai se ferrar. Eu sou má. - Dei de ombros.

- Esse é um plano muito bom. - Admitiu franzindo o cenho.

- Sim..., mas temos tempo. - Enfiei a mão dentro de sua calça.

- Está certa. - Fechou os olhos adorando.

(...)

Edward PDV

Há vários metros do Volvo, sentando na calçada, liguei para Jasper. Contei-lhe os planos de Bella e ele se mostrou tão surpreso quanto eu.

- Foi fácil distraí-la, eu só falei o que ela queria ouvir. Cara, isso é muita loucura, nem acredito... - Respirei fundo. - Talvez desse certo, talvez não... O importante é que ela “zerou”. Está bêbada e cansada demais para abrir os olhos. Acho que só vai acordar amanhã e estamos a quilômetros do Democracy. Fica tranquilo, Bella não vai fazer nada essa noite.

- Valeu, Edward. Esse seu plano foi mesmo muito bom. Fique com Bella o máximo de tempo possível, estou reunindo algumas informações sobre o transtorno de Isabella e amanhã cedo vou falar com os pais dela. Tenho certeza de que eles vão tirá-la da cidade e vão dar um jeito de ajudá-la.

- Tudo bem. Entendi.

- Ei, Edward... - Hesitou.

- Fala.
                                                                                                  
- Sinto muito. Sei que está sendo difícil pra você.

Fiquei olhando para o chão. Era perturbador estar com Bella, pois meus sentidos a reconheciam como Isabella. Mesmo a garota tendo atitudes extremas e diferentes, tinha o mesmo cheiro que aprendi a reconhecer, o mesmo rosto, o mesmo timbre de voz. Eu não gostava de Bella, mas não podia ignorá-la, porque, apesar de tudo, ainda era a minha Isabella. Às vezes minha consciência entrava em colapso, chocando as questões: certo ou errado? Sim ou não? Ódio ou amor? Livre ou preso? Mas, no final das contas, eu não tinha perdido as esperanças: Pra mim, Isabella estava viva.

- Jasper, eu te ligo depois porque... - Me levantei assim que ouvi o motor do Mustang roncando. - Merda! - Corri para o Volvo e Bella saiu cantando pneu.

Entrei no carro, joguei o celular no banco e procurei minhas chaves.

- Foda! - Berrei, constatando que Bella as tinha levado. Por sorte, me lembrei da chave reserva no porta luvas.

Bella PDV

- AAAAAAAAAAAHHHHHHHH! - Chacoalhei a cabeça em puro ódio.

Quando acordei e vi que passavam das 20:30h, finalmente entendi a jogada de Edward. Sua traição reacendeu minha cólera e agora, mais do que nunca, ansiava por vingança. Se ele pensava que podia me deter, estava fatalmente enganado.

Apertei o cinto de segurança, troquei de marcha e pisei fundo. Mesmo com a visão alterada pela bebida, avistei seu carro pelo retrovisor e me agarrei ao volante, ardendo em febre.

- EU NÃO VOU DESISTIR!

O ponteiro do velocímetro disparou e eu abri uma boa distância do maldito Falcon. A rodovia não me oferecia riscos, mas minha cabeça latejava como se fosse explodir.

De repente, meu celular começou a tocar e eu já sabia quem era. Peguei o aparelho que estava no painel e comecei a esbravejar:

- Eu vou te matar! Vou te matar, seu Falcon estúpido!

- Por favor, pare!

Esfreguei rapidamente os olhos, sem ter certeza se à minha frente havia mesmo um cruzamento.

- Nem mesmo você será capaz de me impedir. O DEMOCRACY IRÁ QUEIMAR! - Fiz uma ultrapassagem há mais de 120km/h.

- ISABELLA, ISSO TEM QUE PARAR!
                                    
Pra mim, foi a gota d´água.

- EU. NÃO. SOU. ISABELLAAAAAAAA!

No cruzamento, tentei fazer a curva e perdi o controle. O carro derrapou e lutei com a direção. Não sabia se era o Mustang ou minha cabeça que estava girando, mas quando pisei no freio, me senti uma maçã sendo jogada dentro do liquidificador.

Girando... girando...  girando... 

Eu estava capotando? Era delírio?

Pânico!

Cobri a cabeça com os braços e na escuridão total, só ouvia o som de vidro estilhaçando e o gosto de... sangue.

(...)

Edward PDV

- ISABELLAAAA! - Gritei sendo segurando por pessoas que nem conhecia. Não dava para aceitar que não podia fazer nada.

No acostamento da rodovia, os paramédicos tentavam reanimar minha namorada. Ela estava bastante ferida e acabara de ter uma parada cardiorespiratória. A massagem cardíaca não deu resultados e, por isso, prepararam o desfibrilador. 

Rasgaram a blusa de Isabella e colocaram as pás do desfibrilador em seu tórax e na região das costelas.

“200 Joules!”, ouvi alguém falar.

A corrente elétrica lhe provocou um espasmo, mas de nada adiantou.

“300!”

Fiquei preso naqueles intermináveis e dolorosos segundos. Era como se tudo estivesse em câmera lenta, um momento no tempo irreal demais.

Ela não podia morrer...

- ISABELLAAAA! - Gritei mais uma vez.

***

 Próximo Capítulo Aqui!

2 comentários:

Kelly disse...

incrivel, perfeito, incomparavel, maravilhoso e empolgante como tudo que vc faz, Lunah! estou relendo essa fic perfeita pela quarta vez e ainda "feels like the first time". muito obrigada por dividir todo esse talento conosco, meras mortais, suas leitoras! bjoooooooooooooo e sucesso, muito socesso, pq VC merece *_*

D.S.Miranda disse...

De novo e mais uma vez eu me surpreendi com essa fic, porque puta merda eu AMO a Bella, ela tem um fogo, uma ira que me encanta, mas mesmo assim eu quero a minha Isabella de volta com todo o seu jeito de "menina mulher"


bjkos e até mais !

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